
Mais do que responder perguntas sobre doenças e tratamentos, o pediatra Oromar Suertegaray conduziu uma verdadeira aula sobre saúde infantil ao defender que informação, prevenção e acompanhamento contínuo são as principais ferramentas para garantir um desenvolvimento saudável. Com meio século de atuação na pediatria, o médico abordou temas que fazem parte da rotina de milhares de famílias, desde a fimose nos meninos até os desafios impostos pelo inverno e pela crescente presença das telas na infância.
Um dos primeiros assuntos foi a fimose, condição que, segundo ele, é fisiológica na maior parte dos recém-nascidos e, na maioria das vezes, evolui naturalmente conforme o crescimento da criança.
"Quando o bebê nasce, praticamente todos apresentam algum grau de fimose. Se ele urina normalmente, tem um bom jato e não apresenta dificuldade, geralmente apenas acompanhamos a evolução. Nem toda fimose precisa de cirurgia."
O pediatra explicou que atualmente muitos casos podem ser resolvidos com tratamento clínico, utilizando pomadas específicas e massagens orientadas por profissionais. A intervenção cirúrgica fica reservada para situações em que o tratamento conservador não apresenta resultado ou quando há complicações, como infecções urinárias de repetição ou dificuldade importante para urinar.
Outro alerta importante foi sobre um hábito ainda comum entre algumas famílias: forçar a retração da pele do prepúcio durante a higiene.
"Isso nunca deve ser feito sem orientação médica. Forçar a pele pode provocar lesões e até uma parafimose, que é uma emergência porque compromete a circulação da glande."
Também sobre a higiene íntima dos meninos, Oromar orienta simplicidade e cautela.
"Enquanto a glande não pode ser exposta naturalmente, basta lavar apenas a parte externa com água. Sabonetes podem irritar a mucosa da criança e não há necessidade de retirar o esmegma de forma forçada."
Inverno exige vigilância,
mas não pânico
Com a chegada das temperaturas mais baixas, cresce também a preocupação das famílias diante das infecções respiratórias. Para o pediatra, porém, o primeiro passo continua sendo investir na prevenção.
"Hoje temos uma cobertura vacinal extraordinária. Muitas doenças que antes lotavam hospitais praticamente desapareceram graças às vacinas."
Ele destaca que crianças menores de seis anos e idosos continuam sendo os grupos mais vulneráveis às complicações provocadas por vírus como o Influenza.
"A vacina é a principal proteção. Ela reduz formas graves da doença e ainda traz benefícios importantes para outras condições de saúde."
Sobre a bronquiolite, uma das doenças que mais preocupa pais de bebês, Oromar avalia que o cenário começa a mudar positivamente com a chegada das novas estratégias de imunização.
"As gestantes já podem receber vacina que protege os bebês, e os prematuros também contam com imunização específica. A tendência é que os casos graves diminuam significativamente nos próximos anos."
A febre não é a doença,
é um aviso
Outro ponto que costuma gerar corridas imediatas aos serviços de urgência é a febre. O médico faz questão de tranquilizar as famílias ao explicar que ela representa uma resposta natural do organismo.
"A febre é um alarme. Ela mostra que o sistema imunológico está trabalhando. O importante não é combater apenas a temperatura, mas observar como a criança está."
Segundo ele, crianças ativas, hidratadas e sem sinais de dificuldade respiratória podem ser observadas inicialmente em casa, sempre respeitando a orientação médica e utilizando antitérmicos quando realmente necessários.
"Quem precisa ser tratado é a criança, não apenas o número que aparece no termômetro."
Creche fortalece o desenvolvimento infantil
Apesar da maior circulação de vírus entre as crianças pequenas, Oromar defende que a convivência nas creches traz ganhos importantes para o desenvolvimento.
Baseando-se na experiência acumulada ao longo da carreira, ele lembra que acompanhou a implantação das primeiras creches do município e observou, inclusive, melhores resultados na alfabetização e na socialização entre crianças que frequentavam esses espaços.
"Elas convivem, aprendem a compartilhar, desenvolvem linguagem, autonomia e também constroem imunidade. O desenvolvimento acontece de forma muito mais rica."
O pediatra reconhece que algumas famílias optam por retirar temporariamente os filhos da creche quando as infecções se tornam muito frequentes, mas ressalta que isso deve ser analisado individualmente, sem perder de vista a importância da convivência social.
As telas podem esperar
Na reta final da entrevista, Oromar abordou um tema cada vez mais presente dentro dos lares: o uso de celulares, tablets e televisores por crianças pequenas.
A orientação segue as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria.
"Até os dois anos, a recomendação é tela zero. A criança precisa tocar, cheirar, experimentar objetos reais. É assim que o cérebro constrói suas conexões."
Segundo ele, a introdução precoce dos dispositivos eletrônicos pode comprometer aspectos importantes do desenvolvimento cognitivo, emocional e social.
"É muito mais perigoso uma criança entrar sozinha na internet do que sair sozinha na rua. O ambiente digital precisa da mesma supervisão que qualquer outro espaço."
Para Oromar, tecnologia e infância não precisam ser adversárias, desde que haja equilíbrio.
"As telas podem ser ferramentas excelentes quando utilizadas na idade certa, por tempo adequado e sempre acompanhadas pelos pais."
Educar para a felicidade
Ao encerrar a conversa, o médico, que completa 50 anos dedicados à Pediatria, deixou uma reflexão que sintetiza sua filosofia profissional e humana.
"Quando nasce um filho, nossa missão não é apenas fazê-lo crescer. É educá-lo para ser feliz. O amor, o diálogo e a presença da família continuam sendo os melhores remédios para uma infância saudável."
lto Jacuí/RS





















