31 de Julho, 2026 09h07mCotribá por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

"A governança era simbólica", diz vice-presidente ao explicar como a Cotribá chegou à maior crise de sua história

Sérgio Strentzke afirma que o Conselho de Administração não tinha acesso às informações necessárias para exercer plenamente seu papel

Sergio Strentzke, Vice-presidente da cotribá
Sergio Strentzke, Vice-presidente da cotribá

 Falhas na governança, falta de acesso do Conselho de Administração às informações estratégicas e uma gestão que não se adaptou às mudanças do cenário econômico estão entre as principais causas da crise que levou a Cotribá ao maior endividamento de sua história, segundo o vice-presidente Sérgio Strentzke.

Muito antes de ocupar a vice-presidência da Cotribá, Sérgio Strentzke era apenas mais um menino do interior que acompanhava o pai nas idas à cooperativa. Na pequena propriedade rural da família, em Saldanha Marinho, aprendeu cedo que a Cotribá não era apenas o lugar onde se entregava a produção ou se compravam insumos. "Era a nossa segunda casa", recorda.

Décadas depois, é justamente a missão de reconstruir essa relação de confiança que ocupa os dias do agricultor formado como técnico em Agropecuária pela Setrem, de Três de Maio, e que hoje integra a direção responsável por enfrentar a maior crise dos 114 anos da cooperativa.
O envolvimento comunitário o aproximou da liderança cooperativista. Foi conselheiro de Administração entre 2005 e 2007, retornou à governança em 2023 e hoje divide com o presidente Carlos Wilke Diehl a condução do processo de reconstrução da cooperativa.

Em entrevista Strentzke fez uma das declarações mais contundentes desde o início da crise. Para ele, o problema ultrapassou as dificuldades financeiras e teve origem em falhas estruturais de governança.
"A governança era muito simbólica antes. Hoje ela é participativa."

A declaração ajuda a responder uma das perguntas que mais inquietam os associados: como uma cooperativa centenária, com patrimônio construído ao longo de gerações, chegou a um endividamento bilionário sem que houvesse uma reação antecipada de seus mecanismos de controle.

Segundo o vice-presidente, o Conselho de Administração desejava participar mais ativamente das decisões estratégicas, mas não dispunha das informações necessárias para exercer plenamente sua função.

"Precisava mudar o rumo da gestão, mas a gente não tinha acesso às informações para contribuir com essas mudanças."

Mesmo antes de retornar ao Conselho, Strentzke afirma que um indicador já chamava sua atenção como produtor rural: o crescimento acelerado do custo financeiro da cooperativa.
Acostumado a administrar a própria propriedade, ele via naquele número um sinal de alerta.

"Quando o custo financeiro cresce de forma desproporcional, significa que alguma coisa está sendo feita de forma equivocada. Aquilo já me preocupava muito antes da crise aparecer para todo mundo."

Na avaliação do dirigente, estiagens sucessivas, enchentes e a queda dos preços das commodities agravaram o cenário, mas não explicam sozinhos a situação encontrada pela atual administração.

"Quando começaram as secas, depois vieram as enchentes e os preços das commodities caíram, era preciso mudar o rumo da gestão. Os tempos mudaram, mas a forma de administrar não mudou."

Um dos momentos mais reveladores da entrevista foi a abordagem sobre a distribuição das sobras em 2023. Em meio aos primeiros sinais de deterioração financeira, a cooperativa distribuiu cerca de R$ 23 milhões aos associados.

Strentzke revelou que votou contra aquela decisão.

"Eu votei para que aquele recurso permanecesse na cooperativa. Entendia que reduzir dívida e fortalecer nossa estrutura seria mais importante naquele momento. Era uma visão de longo prazo."

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A atual direção também conduz uma auditoria investigativa independente que analisa contratos, operações financeiras e episódios como o desaparecimento de cargas de soja, caso já mencionado anteriormente pelo presidente Carlos Wilke Diehl.
Questionado diretamente sobre a possibilidade de desvios de recursos, o vice-presidente evitou antecipar conclusões, mas confirmou que essa hipótese integra o trabalho da auditoria.

"Nós temos uma auditoria investigativa externa e independente. Ela está averiguando isso. Internamente já temos algumas respostas, mas vamos seguir todos os trâmites legais para que, no momento certo, isso possa resultar nas medidas cíveis ou criminais cabíveis."

Segundo ele, a preocupação da atual gestão é construir um conjunto de provas sólido antes de tornar públicas as conclusões.

"Se houve conflito de interesses, se houve intenção ou qualquer irregularidade, queremos provar primeiro. Depois cada pessoa responderá pelos seus atos."

Ao abordar a recuperação judicial, Strentzke afirmou que o instrumento nunca foi visto como solução única, mas como uma das ferramentas disponíveis para reorganizar financeiramente a cooperativa.
Ele explicou ainda a decisão de contratar um CEO e consultorias especializadas.
"Uma dívida desse tamanho exige pessoas acostumadas a negociar com grandes instituições financeiras. Mas as decisões continuam sendo da direção e do Conselho de Administração."

Enquanto negocia o passivo, a Cotribá promove uma ampla reorganização operacional. A fábrica de rações permanece paralisada para revisão completa dos processos de compras, produção, comercialização e gestão de custos. Paralelamente, a venda de fertilizantes, defensivos, calcário e outros insumos vem sendo retomada gradualmente, priorizando operações de menor risco financeiro.

"Quem entregou trigo, canola, milho e soja recebeu dentro dos prazos previstos. Isso foi fundamental para começarmos a recuperar a confiança dos produtores."

A reestruturação, entretanto, também atingiu diretamente cerca de 170 trabalhadores desligados da cooperativa. Strentzke reconheceu que as demissões e o parcelamento das verbas rescisórias representam uma das maiores dores enfrentadas pela atual administração.

"A Cotribá causou dor em muita gente. Nos funcionários, nos associados e nos credores. Precisávamos reduzir custos para manter a cooperativa de pé, mas sabemos o sofrimento de quem foi atingido."
Ao final, Sérgio voltou à lembrança do pai, agricultor que via na cooperativa uma extensão da própria casa.

"Quando o agricultor dizia que a Cotribá era a segunda casa dele, isso era um patrimônio que dinheiro nenhum compra. Nosso trabalho agora é fazer com que o associado volte a sentir isso. Porque só com essa confiança reconstruída será possível escrever um novo capítulo da história da cooperativa."

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