
Comarca de Ibirubá registrou 54 medidas protetivas em 2025; Especialista de Cruz Alta aponta que machismo geracional e posse ainda impulsionam crimes na região.
Enquanto o calendário marca o Mês da Mulher com homenagens e flores, a realidade nos boletins de ocorrência do Alto Jacuí exige uma reflexão mais profunda. Para as mulheres da região, a verdadeira conquista de direitos passa, necessariamente, pelo direito de viver sem medo. Em 2025, os dados do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) mostram que a Justiça precisou intervir com 54 medidas protetivas em Ibirubá e 293 em Cruz Alta, evidenciando que o perigo muitas vezes mora ao lado.
O mês de março costuma chegar com flores e homenagens, mas para "Ana" (nome fictício), moradora Ibirubá, a primavera de 2025 trouxe algo mais urgente: a necessidade de sobreviver. Sua história, marcada pelo controle excessivo que escalou para ameaças e lesão corporal, não é isolada. Ela faz parte das 35 mulheres que registraram ameaça em Ibirubá e das 54 que precisaram de uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) no último ano, conforme dados do Tribunal de Justiça do RS (TJRS) e da Secretaria de Segurança Pública (SSP-RS).
O ciclo de Ana começou de forma sutil, com o controle do celular e das amizades, até se transformar em agressão física. "A gente tenta justificar, acha que é um momento ruim. Mas quando a ameaça vira rotina, a sensação de insegurança toma conta de tudo", relata. Em Ibirubá, em 2025, foram 19 registros de lesão corporal e, em Cruz Alta, esse número chegou a 135.
Para Ana, o divisor de águas foi o registro formal. "O medo de que o papel da Justiça não adiantasse era grande, mas ele foi o limite que eu não conseguia impor sozinha". A medida protetiva afastou o agressor e permitiu que ela buscasse o recomeço.
O olhar técnico: Voz de quem acolhe
A experiência de Ana é confirmada por quem atua na linha de frente do atendimento regional. De acordo com Ivânia Librelotto, coordenadora do Centro Maria Mulher, em Cruz Alta, o aspecto que mais chama a atenção é a presença de jovens tanto entre as vítimas quanto entre os agressores.
Para Ivânia, o dado evidencia que ainda persiste um pensamento machista enraizado. "Alguns homens mantêm a ideia de que a mulher é sua propriedade e não conseguem acompanhar a cabeça delas", pontua. O Centro Maria Mulher presta atendimento a todos os casos encaminhados e Ivânia acredita que o aumento nos registros (como as 293 medidas em Cruz Alta) reflete o fortalecimento da rede de proteção entre Prefeitura, Brigada Militar e Polícia.
O desafio do descumprimento
Embora a denúncia seja o primeiro passo, o Rio Grande do Sul enfrenta um desafio estrutural. Em 2025, o estado registrou 13.891 casos de descumprimento de medidas protetivas — uma média de 38 ocorrências por dia. Em janeiro de 2026, a situação agravou-se, chegando a 41 registros diários.
Mesmo com esses obstáculos, a rede de apoio em Ibirubá e região insiste: o silêncio é o maior aliado do agressor. Nos primeiros meses de 2026, novas ocorrências já surgem em municípios como Fortaleza dos Valos, Quinze de Novembro e Selbach, provando que a luta pela vida das mulheres deve ser o centro do debate neste mês de março.





















