Ibirubá, 01 de Novembro de 2026
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Rádio Cidade Ibirubá

Uma aula na Terra da Pitangueira sobre os caminhos do Holocausto

Único brasileiro a acompanhar os 80 anos da libertação de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, esteve em Ibirubá

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Jardel Schemmer- Repórter Rádio Cidade 104.9

Uma aula na Terra da Pitangueira sobre  os caminhos do Holocausto

A Unimed Alto Jacuí promoveu uma palestra que ficará marcada na memória cultural e histórica de Ibirubá. O convidado foi o jornalista e escritor Salus Loch, estudioso do Holocausto há mais de dez anos e o único jornalista brasileiro presente nas cerimônias que lembraram os 80 anos da libertação do campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, no dia 27 de janeiro deste ano.

 

Com experiência acumulada Logo ao iniciar sua fala, Loch destacou a urgência do tema.

“Embora já tenham se passado oito décadas, as lições do Holocausto continuam atuais. Precisamos falar sobre empatia, respeito e consciência histórica, porque a memória é a única forma de impedir que atrocidades semelhantes se repitam”, afirmou.

Em suas palavras, o jornalista deixou claro que não se trata apenas de olhar para o passado, mas de interpretar sinais do presente.

“Hitler começou com palavras. Depois vieram as ações. Hoje, em diferentes partes do mundo, já vemos discursos perigosos ganhando espaço novamente.”

O jornalista relatou sua experiência em Auschwitz, onde esteve três vezes como correspondente. Lembrou que, na cerimônia mais recente, apenas 56 sobreviventes compareceram, número muito inferior ao registrado em 2020, quando mais de 200 ainda estavam vivos para testemunhar. “O tempo passa. Aqueles que viveram o horror estão morrendo. A cada ano são menos vozes, e por isso o compromisso de preservar a memória é cada vez mais nosso, de quem estuda e transmite o que aconteceu. Enquanto houver alguém falando sobre isso, as vítimas não serão esquecidas”, enfatizou.
Aos ouvintes, Loch trouxe também uma análise histórica que ajuda a compreender a ascensão do nazismo. Explicou como o discurso extremista ganhou força em meio à crise econômica e política da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. “A Alemanha estava humilhada pelo Tratado de Versalhes. A economia despencou. Foi nesse caldo que Hitler se projetou, oferecendo respostas simples para problemas complexos, culpando minorias, demonizando os judeus, e prometendo que faria a Alemanha grande novamente. Esse tipo de discurso ainda ecoa. É por isso que precisamos estar vigilantes.”
Ao falar sobre o funcionamento da máquina nazista, Loch destacou o uso da propaganda, da burocracia e da violência como ferramentas de repressão. “A partir das leis de Nuremberg, em 1935, os judeus perderam direitos básicos. Não podiam mais casar com arianos, professores eram afastados, famílias inteiras foram marginalizadas. A máquina do Estado foi desenhada para expulsar e silenciar. Muitos acreditavam que não aconteceria nada pior, mas a engrenagem já estava rodando. E quando perceberam, já estavam cercados.”
O jornalista também comentou sobre o processo sistemático de extermínio.

“Nos campos, as vítimas eram enganadas. Diziam que iriam tomar banho, entravam nas câmaras e em poucos minutos, com o gás Zyklon B, milhares eram mortos de uma só vez. Depois vinham os crematórios, os corpos eram queimados, e tudo era aproveitado: dentes de ouro, cabelos, pertences. Era uma máquina industrial de matar, fria e planejada”, descreveu, reforçando o caráter único do Holocausto como genocídio consciente e sistemático.

A palestra apresentou ainda histórias marcantes, como a da cidade de Lidice, na antiga Tchecoslováquia, destruída após o assassinato de um líder nazista. “Todos os homens foram mortos, as mulheres levadas a campos de concentração e as crianças assassinadas. Hoje, o lugar é um memorial, com esculturas que lembram as 82 crianças mortas. É uma cena que emociona e mostra a crueldade, mas também a capacidade humana de reconstruir após a tragédia”, contou.

Ao longo de sua fala, Loch reforçou a responsabilidade do jornalismo em preservar a memória e combater o negacionismo. “Dinheiro não é o que move essa pesquisa. O que me move é a certeza de que, enquanto falarmos do Holocausto, enquanto escrevermos e registrarmos, as vítimas continuarão vivas na lembrança. O jornalismo tem esse papel de iluminar aquilo que muitos tentaram esconder.”
O público, formado majoritariamente por jovens, foi saudado por ele como um sinal de esperança. “É para eles que precisamos falar. São os que vão carregar adiante o compromisso de nunca permitir que esse horror se repita. Se cada estudante que saiu daqui hoje refletir sobre empatia, respeito e tolerância, já teremos cumprido nossa missão.”
Ao final, o jornalista convidou a comunidade a acessar o e-book “Liberação”, fruto de suas experiências nos campos de extermínio, disponível gratuitamente no site do Museu do Holocausto de Curitiba e no portal da Unimed/RS.

“Esse livro é uma forma de compartilhar o que vi, de manter viva a memória de lugares que marcaram a história da humanidade. O Holocausto não pode ser reduzido a números. Eram pessoas, famílias, histórias interrompidas. Contar isso é um dever, e cada geração precisa assumir esse compromisso.”

A noite em Ibirubá terminou com aplausos prolongados, em reconhecimento não apenas ao trabalho do jornalista, mas à coragem de trazer à luz um tema doloroso e necessário. Entre tantas palavras ditas, uma ficou ecoando: memória. Memória que não é apenas lembrança, mas responsabilidade coletiva de nunca deixar que o horror volte a se repetir.

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