20 de Abril, 2026 08h04mPolítica por REDAÇÃO INTEGRADA

Casa de acolhimento enfrenta impasse e prefeitos questionam viabilidade

Estrutura construída com mais de R$ 2 milhões tem baixa demanda prevista e alto custo de manutenção

Custo de manutenção e baixa demanda regional travam decisão sobre custos e manutenção da  Casa de Acolhimento em Ibirubá

O que foi projetado para ser a redenção do acolhimento institucional no Alto Jacuí transformou-se em um complexo nó administrativo e financeiro. Em reunião estratégica realizada na sexta-feira (10), lideranças dos 14 municípios da região manifestaram sérias reservas quanto à viabilidade de colocar em operação a Casa de Acolhimento Regional, localizada em Ibirubá. O prédio, que recebeu mais de R$ 2 milhões em investimentos, esbarra agora em um "arrepio" dos prefeitos: o alto custo de manutenção para uma demanda que se mostrou, na prática, muito inferior à prevista no papel.

O presidente do Corede Alto Jacuí, Beto Visoto, detalhou com transparência o cenário de incerteza que domina os bastidores. Segundo ele, o projeto foi uma conquista legítima da região via Consulta Popular, mas o momento da implementação revelou obstáculos técnicos severos. "Houve a mudança dos prefeitos, dos secretários, e diante do levantamento do valor, criou-se um arrepio. Os prefeitos não estão vendo a viabilidade de aportar o recurso que ficaram de aportar lá no início", explicou Visoto.
O dirigente destacou que a inquietação não é apenas financeira, mas de eficiência pública. "Hoje, temos uma capacidade para até 32 crianças e jovens, mas o levantamento apresentado hoje aponta uma necessidade regional de apenas cinco acolhidos. Os municípios estão inquietos porque o valor é alto e, ao mesmo tempo em que se investiria em algo sem pleno uso, há outras situações necessitando de atendimento mais intenso e diário", revelou o presidente do Corede, citando que a manutenção de um serviço ocioso seria uma atitude "inconsequente".

A prefeita de Ibirubá, Jaqueline Brignoni Winsch, mantém uma postura pragmática. Embora reafirme o desejo de ver a estrutura funcionando, ela descarta a possibilidade de Ibirubá carregar o fardo financeiro sozinha. "Nossa ideia é continuar com o objeto da casa, mas isso depende do custeio que deve partir dos 14 municípios. Se os municípios aportarem o recurso, o objeto será executado conforme acordado. Caso contrário, já se estuda uma outra alternativa para que a gente tenha o melhor uso desse imóvel público", afirmou a prefeita.

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Essa "alternativa" ganhou corpo na fala do prefeito de Quinze de Novembro, Marcos Luiz Petri. Ele sugeriu que a estrutura seja aproveitada para uma carência gritante na região: o atendimento especializado. "A obra pública está ali para ser desenvolvida. Podemos sim mudar o objeto. Uma das principais demandas que os municípios têm hoje é o tratamento e acompanhamento de crianças autistas. Seria uma possibilidade", defendeu Petri, ressaltando que, embora o prédio seja administrado por Ibirubá, ele pertence a todo o consórcio regional.

A decisão final agora depende de uma rodada de discussões entre o Corede, a Amaja (Associação dos Municípios) e o Comaja (Consórcio de Desenvolvimento). Beto Visoto encerrou reforçando que a discussão precisa ser às claras, inclusive com a Câmara de Vereadores. "Não podemos criar mais problemas sem embasamento de fato. Me equivoquei se disse algo antes, mas o reconhecimento é necessário: se não tiver recurso, não tem como implantar algo que não se tem condições de manter", concluiu.

A TRAJETÓRIA DA OBRA
Em dezembro de 2023 o  Governo do Estado assinou, em Ibirubá, o convênio para a criação da Casa de Acolhimento Regional. O projeto, resultante da Consulta Popular 2022/2023, previa um investimento inicial de R$ 1,035 milhão do Estado e R$ 182 mil de contrapartida municipal. O objetivo era acolher até 20 menores afastados do convívio familiar por medidas protetivas.

Junho de 2025: Construção
A obra começou no bairro Hermany, após ser a mais votada da região com mais de 13 mil votos. Naquela fase, o investimento total já ultrapassava os R$ 2 milhões, incluindo verbas para mobiliário. A promessa era evitar o deslocamento de crianças para cidades distantes, como Lagoa Vermelha, o que gerava custos de até R$ 4 mil por acolhido aos cofres municipais. Com o prédio pronto, o foco mudou da construção para a operação. A baixa demanda (5 casos reais para 32 vagas) e o custo fixo de equipes multidisciplinares (psicólogos, assistentes sociais, monitores 24h) levaram os prefeitos a questionar a sustentabilidade do modelo, abrindo espaço para a proposta de transformá-lo em um Centro de Atendimento ao Autismo.
 

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