Ibirubá, 16 de Outubro de 2026
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Quatro décadas de carinho e uma vida inteira de histórias para contar

Depois de 42 anos cuidando de crianças, tia Sueli deixa a escola, mas permanece na memória de geraçõesregional.

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Cristiano Lopes- Jornalista

Quatro décadas de carinho e uma vida  inteira de histórias para contar

Há mãos que passam pela nossa infância e permanecem na memória, mesmo quando já não lembramos exatamente de seus gestos. Mãos que prepararam mamadeiras, trocaram fraldas, enxugaram lágrimas e ensinaram os primeiros passos. Durante 42 anos, foram as mãos de Sueli Ribas Fernandes que acolheram centenas de crianças em Ibirubá. Agora, aos 64 anos, ela encerra uma trajetória que se confunde com a própria história da educação infantil do município.

Nascida em Alfredo Brenner, Sueli chegou à cidade aos 11 anos. Trabalhou como empregada doméstica até ingressar na Prefeitura, em 1985. Começou na limpeza da creche do bairro Progresso, mas logo encontrou sua verdadeira vocação: cuidar de crianças.

Naquele tempo, a realidade era outra. Bebês chegavam à creche com apenas dois meses de vida. Em uma única turma, três funcionárias cuidavam de 16 a 18 pequenos. Não havia fraldas descartáveis nem lenços umedecidos.

“Tinha crianças que vinham com pedaços de camiseta velha, de lençol velho, que serviam de fralda. Algumas chegavam com saco de açúcar fazendo as vezes de calça plástica.”

A pobreza também entrava pela porta da creche. Algumas crianças precisavam de banho e roupas limpas antes de começar o dia. A alimentação oferecida pela escola representava, para muitas famílias, uma segurança indispensável.

Sueli atravessou diferentes escolas e gerações. Trabalhou no Progresso, foi merendeira durante quatro anos no Rincão Seco e dedicou seus últimos 14 anos à Escola Alice Fleck. Nesse percurso, viveu algo que poucas profissões permitem: cuidar dos filhos daqueles que um dia estiveram sob seus cuidados.

“Tem alunos que eu cuidei quando eram bebês e que hoje, quando me encontram na rua, vêm me abraçar. E teve crianças que eu cuidei dos filhos delas também. São lembranças muito boas.”

Há duas semanas, por necessidades familiares, Sueli deixou a rotina escolar. A decisão ainda dói.

“Quando a gente está de férias, sabe que vai voltar. Agora eu sei que não vou voltar mais. Está sendo muito difícil.”

As mensagens das mães, das colegas e das crianças continuam chegando. Ela ainda não encontrou coragem para visitar a escola. Na despedida, não falou de cansaço. Falou de amor. “Eu entreguei as crianças nas mãos das minhas colegas, que são maravilhosas e vão dar continuidade ao meu trabalho.”

Sueli saiu da escola. Mas, em muitas casas de Ibirubá, ainda existe alguém que, ao encontrá-la, sorri e chama: “Oi, tia!”

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