09 de Janeiro, 2026 08h01mEntrevista por ANDREI GRAVE

Com uma mala cheia de sonhos, Caroline Trombetta saiu do interior e encontrou seu lugar no mundo

A jovem que saiu de Sede Aurora transformou sonhos em profissão e encontrou realização longe de casa, sem perder as raízes

Natural de Sede Aurora, no interior de Quinze de Novembro, engenheira ambiental construiu sua trajetória entre a Itália e Londres, onde atua na área da sustentabilidade e carrega consigo as raízes, os valores familiares e a coragem de recomeçar.

Quando deixou Sede Aurora com uma mala leve e planos ainda indefinidos, Caroline Trombetta não imaginava que aquele passo marcaria o início de uma das fases mais transformadoras da sua vida. Passados cinco anos desde a chegada na Europa, a engenheira ambiental e sanitária, hoje com 30 anos, afirma estar realizada profissionalmente e pessoalmente, após uma caminhada que passou pela Itália, enfrentou uma pandemia e exigiu resiliência, humildade e coragem para seguir em frente.
Filha de Saulo e Lourdes Trombetta, Caroline cresceu no interior, em uma infância que guarda como um dos maiores tesouros da sua história.

“Foi uma infância muito tranquila. A gente foi a última geração sem celular. Brincava na rua, jogava bola, tomava banho na barragem. Era tudo muito simples e muito verdadeiro”, relembra.

Para ela, aquele período moldou valores que carrega até hoje. “O respeito ao próximo e a humildade são coisas que eu levo comigo. Eu não sou mais que ninguém por estar fora ou falar outra língua. Isso é só uma escolha.”
A formação acadêmica começou ainda no Rio Grande do Sul, com a graduação em Engenharia Ambiental e Sanitária pela Universidade Federal de Santa Maria, campus de Frederico Westphalen. Mesmo antes de concluir a faculdade, Caroline já demonstrava inquietação.

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“Eu sempre sonhei alto. Queria estudar fora, conhecer outras culturas, sair um pouco das asas dos meus pais, mesmo sabendo que eles sempre me apoiariam.”

Após a formatura, vieram as primeiras experiências profissionais no Estado, até que, em 2019, surgiu a oportunidade que mudaria o rumo da sua vida: iniciar o processo de cidadania italiana. “Eu falei para os meus pais: vou pedir demissão da Cotribá e vou agora. Era a hora. Fui com uma mala de 10 quilos e dois pacotes de erva, achando que voltaria em seis meses. Esses seis meses viraram seis anos.”
A chegada à Itália coincidiu com o início da pandemia de Covid-19, trazendo incertezas e desafios. Sem trabalho no início, Caroline precisou se reinventar. “Não tinha como voltar. Não tinha voo, não podia sair de casa. Resolvi aprender italiano, estudando sozinha, vendo vídeos, praticando.” O primeiro emprego veio na colheita de frutas. “Trabalhei com mirtilo, framboesa, uva. Nunca imaginei que faria isso, mas cresci no interior, então não me assustei. Era trabalho honesto.”
Na sequência, atuou em resorts cuidando de crianças, em troca de moradia, alimentação e um salário básico. “Não era fácil, mas me permitiu aprender o idioma e me manter.” Nem todas as experiências foram positivas. “Passei por uma situação difícil com uma família que me explorou e não me pagou. Aquilo doeu, mas me ensinou. Aprendi a impor limites e a confiar mais em mim.”
Ainda em 2020, com a cidadania italiana concluída, surgiu a chance de seguir para o Reino Unido, antes das mudanças provocadas pelo Brexit. “Disseram: é agora ou nunca. Fui de novo, com outra mala e muito medo, mas fui.” Em Londres, começou novamente do zero. Trabalhou em restaurante, fez faxinas, cuidou de crianças e, aos poucos, construiu uma base sólida. “Foram quase dois anos de trabalho braçal até eu conseguir entrar na minha área.”
Hoje, Caroline atua em uma empresa do setor imobiliário, trabalhando diretamente com sustentabilidade corporativa e gestão ambiental.

“Lá, as leis ambientais funcionam. Os prédios precisam medir consumo de água, energia, emissão de carbono. Tudo é fiscalizado.”

O crescimento profissional veio acompanhado de novas responsabilidades. “Hoje eu tenho uma pessoa que reporta para mim. Estou aprendendo a liderar, a ensinar. Isso é muito significativo.”
O transporte público substitui o carro, o trabalho é híbrido e, como renda extra, Caroline atua como cuidadora de cães. “É um ganha-ganha. Eu amo animais, faço um dinheiro extra e isso traz leveza para os dias, especialmente no inverno.” O clima, aliás, é apontado como uma das maiores dificuldades. “No inverno, às quatro da tarde já é noite. Muito cinza, muita chuva. Isso pesa.”
Apesar da realização profissional, a saudade do Brasil é constante. “O que mais me prende ao Brasil é a família, os amigos, o calor humano. Aqui é churrasco, chimarrão, conversa olho no olho. Lá, a vida é mais recolhida.” Caroline reconhece que, para formar uma família no futuro, a ausência de uma rede de apoio pesa. “Não gostaria de criar um filho sem terra, sem grama, sem essa liberdade que tive.”
Mesmo distante, ela mantém um forte vínculo com as origens. “Quando volto, no segundo dia parece que eu nunca saí. É como se tudo estivesse guardado dentro de mim.” A memória da avó, que guardava recortes de jornal com notícias da neta, também permanece viva. “Tenho uma pasta com tudo o que ela guardou.”
Ao olhar para trás, Caroline resume sua trajetória em uma palavra: perseverança. “Teve momentos de medo, solidão e dúvida. Mas eu sempre pensei: se eu não tentar, vou ficar com a pergunta do ‘e se?’. A coragem não é ausência de medo, é ir com medo mesmo.”
Para os jovens do interior que sonham em ir além, ela deixa um conselho direto: “Acredite no teu sonho, seja humilde, não tenha medo de pedir ajuda e vá atrás. Nada cai no colo. Seja curioso, tenha visão e não se compare com a trajetória dos outros. Cada um tem o seu tempo.”

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