Hospital encerra serviço de informação prestado à comunidade há mais de seis décadas
A mudança ocorreu em 7 de agosto de 2026 em comunicado institucional

Uma tradição que acompanhou gerações de famílias de Ibirubá chegou ao fim no dia 7 de agosto. O Hospital da Comunidade Annes Dias deixou de fornecer às emissoras de rádio as informações sobre internações e altas de pacientes. A decisão, comunicada oficialmente pela instituição, encerrou uma prática com mais de seis décadas de história e que remonta aos primeiros anos da radiodifusão no município.
Muito antes dos celulares e das redes sociais, o rádio cumpria uma função que hoje pode parecer distante: avisar às famílias que um parente havia sido internado. Orlando de Moura Nogueira, que iniciou sua trajetória na Rádio Ibirubá em 1964, recorda que os primeiros avisos remontam ao final da década de 1950. Naquela época, não existia uma relação organizada de pacientes. Os comunicados transmitiam recados enviados pelos próprios internados.
“Os avisos eram individuais”, recorda Nogueira. O radialista reproduz o formato utilizado na época: “Atenção, Várzea. familiares de fulano de tal. O mesmo avisa que consultou e teve que baixar o hospital. Pede que tragam roupas. Não sabe o dia da alta”. Segundo ele, as informações hospitalares já estavam presentes na programação entre 1958 e 1959, mas o serviço ganhou maior organização a partir de 1964 e 1965, quando passou a integrar a Hora da Solidariedade.
O contexto ajuda a explicar a importância que a informação possuía. Em uma época na qual muitas famílias do interior não tinham telefone e o deslocamento até a cidade era mais difícil, a emissora funcionava como elo entre o paciente hospitalizado e seus familiares. Pelo rádio chegavam os pedidos para levar roupas, alimentos ou simplesmente a notícia de que alguém precisara permanecer internado. “Parece incrível, mas era assim mesmo”, resume Orlando Nogueira.
Com o passar dos anos, aquilo que nasceu como uma prestação de serviço individual tornou-se uma informação organizada e rotineira do hospital. O radialista Carlos César, que trabalha na Rádio Ibirubá desde 1982, lembra que o aviso de utilidade pública integrou por muitos anos a Hora da Solidariedade, ao meio-dia. Na década de 80 o quadro de avisos passou a fazer parte do “Plantão Adesso”, relembra Odair José Funck, diretor do Hospital Annes Dias.
Criado em meados de 1987, o Informativo Coprel incorporou a divulgação das internações e altas em sua edição das 7h. Naquele período, a apresentação era de Argeu Pedrotti e Maria Helena Stefanello. Atualmente, o programa é compartilhado por Raquel Lazarotto e Eugênia Trevisan. Durante décadas, a relação das movimentações hospitalares das últimas 24 horas tornou-se parte da rotina dos ouvintes. Nas segundas-feiras, eram informadas as internações e altas ocorridas durante todo o fim de semana. Assim, um serviço que nasceu da necessidade de comunicação entre pacientes e familiares atravessou profundas transformações tecnológicas e permaneceu no ar por mais de 60 anos.
A mudança ocorreu em 7 de agosto de 2026. Em comunicado institucional, o Hospital Annes Dias informou à comunidade, aos veículos de comunicação e aos parceiros que, a partir daquela data, não seriam mais divulgadas informações referentes a altas e internações de pacientes aos meios de imprensa.
Segundo o hospital, a decisão foi tomada pela Diretoria da Associação Hospitalar Annes Dias em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), levando em consideração a natureza sensível das informações relacionadas à saúde. A instituição destacou a necessidade de preservar “a privacidade, a segurança e a dignidade de cada paciente” e reafirmou seu compromisso com uma assistência baseada na ética, responsabilidade e respeito.
Com a decisão, desaparece da programação das rádios uma informação cotidiana, mas permanece registrado um capítulo singular da história da comunicação de Ibirubá: o tempo em que uma voz no rádio era, muitas vezes, a única maneira de uma família no interior descobrir que alguém havia sido internado na cidade.
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