Cruz Monumental repercute no país e amplia debate sobre dinheiro público, turismo e religião
A repercussão nacional transformou a Cruz Monumental em uma discussão maior do que sua altura.

A construção de uma cruz com 102 metros de altura colocou Cruz Alta no centro de uma discussão que ultrapassou os limites do município. Apresentado pelos idealizadores como a maior cruz do mundo, o empreendimento ganhou espaço em portais de diferentes regiões do país e chegou à Folha de S.Paulo, ampliando o debate sobre o uso de recursos públicos em monumentos religiosos e sobre a expectativa de desenvolvimento econômico pelo turismo.
O projeto começou a ganhar projeção pública em 2023, quando foi lançada a pedra fundamental em uma área próxima à BR-158, obtida pelo município junto ao Exército. No início de setembro deste ano, a Prefeitura anunciou a assinatura do contrato para a primeira etapa da obra, que será implantada no Parque Municipal Antônio Carlos Gomes Nunes.
A proposta vai além da estrutura vertical da cruz. As apresentações públicas incluíram auditório, centro de atendimento, áreas de contemplação, parque temático religioso, pomar com espécies bíblicas e equipamentos destinados aos visitantes. Também foram mencionados elevadores, mirantes e teleférico. O projeto arquitetônico foi elaborado por Henrique Rocha e Luan Vieira, do escritório Santini & Rocha Arquitetos.
Da estimativa inicial aos R$ 30 milhões
Os valores associados ao empreendimento mudaram ao longo dos últimos anos. O projeto completo passou a ser estimado em aproximadamente R$ 30 milhões, considerando não apenas a cruz, mas também o parque e as demais estruturas previstas para receber os visitantes.
A existência de recursos públicos já foi confirmada por uma fonte diretamente ligada ao governo municipal. Em entrevista à Redação Integrada, o deputado estadual Rafael Braga (MDB), esposo da prefeita de Cruz Alta, Paula Rubin Facco Librelotto, afirmou que duas emendas do deputado federal Bibo Nunes destinadas ao empreendimento somavam aproximadamente R$12milhões.
A conta completa, entretanto, ainda depende da identificação formal das duas emendas, dos valores individuais, dos objetos registrados e da situação financeira de cada repasse. Também será necessário esclarecer de onde virão os recursos restantes para que o projeto, estimado perto de R$ 30 milhões, possa ser executado integralmente.
É preciso diferenciar recurso indicado, empenhado, transferido, contratado e pago. Essas etapas não representam a mesma situação orçamentária. A apresentação dos documentos permitirá saber quanto efetivamente entrou nos cofres municipais, quanto já foi comprometido e quanto ainda precisará ser buscado.
Uma aposta no turismo religioso
O principal argumento em defesa da Cruz Monumental é a possibilidade de transformar Cruz Alta em referência nacional do turismo religioso. A expectativa é de que o fluxo de visitantes movimente hotéis, restaurantes, comércio, postos de combustíveis, transporte e prestadores de serviços.
O potencial existe, mas ainda precisa ser demonstrado por estudos. Entre as informações necessárias estão a estimativa anual de visitantes, o tempo médio de permanência no município, a projeção de gastos na economia local, a geração esperada de empregos e os impactos sobre trânsito, segurança e infraestrutura.
A comparação com outros monumentos religiosos, como o Cristo Protetor de Encantado, pode oferecer referências. Não significa, porém, que os resultados serão automaticamente reproduzidos. Localização, acesso, estrutura, divulgação, gestão e integração com outros atrativos interferem diretamente no desempenho turístico.
Duas emendas somariam R$ 12 milhões
Durante a entrevista, Rafael Braga afirmou que os recursos destinados por Bibo Nunes serão empregados não apenas na cruz, mas também no auditório, em um centro e nas demais estruturas do parque.
“Hoje, o que tem são duas emendas parlamentares do deputado Bibo Nunes, em torno de R$ 12 milhões”, declarou.
Braga reconheceu que os recursos disponíveis poderiam não ser suficientes para executar o projeto completo. “Não sei se a gente vai conseguir fazer todo o projeto, realmente todo o parque, toda a infraestrutura. Ele chega perto de R$ 30 milhões”, afirmou.
O deputado estadual também relacionou o projeto a um desejo pessoal de Bibo Nunes. Segundo ele, o parlamentar federal, cruz-altense e filho de ex-prefeito, cresceu observando uma pequena cruz na chegada do município e passou a defender uma obra de maior dimensão.
Para Braga, o empreendimento poderá estimular o turismo religioso, definido por ele como uma “indústria de chaminé limpa” capaz de movimentar a economia local. “Ele acha que isso vai trazer um turismo religioso gigantesco, que pode trazer para a cidade muito movimento”, disse.
A declaração atribui a uma fonte próxima à administração municipal a informação dos R$ 12 milhões. Ainda será necessário, entretanto, conferir nos registros oficiais a identificação das duas emendas, seus valores individuais e a situação de cada recurso.
A repercussão nacional transformou a Cruz Monumental em uma discussão maior do que sua altura.
O empreendimento reúne dinheiro público, atuação parlamentar, promessa turística, futura exploração econômica e identidade religiosa. Antes de classificá-lo como oportunidade ou investimento desproporcional, a população precisa conhecer a conta completa.





